segunda-feira, 28 de abril de 2008

Rio de Janeiro

E assim falou Chico Buarque, em Budapeste:

"Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras,
escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol no Rio de Janeiro, para ter de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco."

O bobo e a casca do ovo

O caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo publicou, nesta segunda-feira, reportagem relatando os shows da Virada Cultural. A matéria, só para assinantes, pode ser conferida aqui.

Destaque para:


Um dos pontos altos foi o show do ex-vocalista do Iron Maiden, Paul Di'Anno, à 1h de ontem, conferido por roqueiros que ocuparam até as áreas gramadas da praça para ouvir hinos como "Hey Ho, Let's Go".

Parece que o repórter foi enganado pelos fãs de Ramones que estavam lá.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Olheiro

Calçada na rua Bela Cintra, madrugada de sábado para domingo. À mesa cheia de cerveja, quatro marmanjos discutem as agruras da vida. Garoa, e faz frio. O trânsito de fêmeas é intenso.

- Nossa, que gostosa.
- É, essa aí dá um caldo mesmo.
- E essa?
- Afe Maria.
- Meu deus.

A noite, é verdade, não primava pela animação.
Todos já estão com as mãos engorduradas de calabresa e provolone. Um deles, macho, pede sorvete para esquentar a farra. Convenhamos: pedir sorvete de madrugada é confissão de derrota moral.

Mais mulheres na rua. O excesso de gostosas vira cacofonia, e o torcicolo começa causar problemas àqueles quatro rapazes semi-embriagados. De um marmanjo:

- Olha lá, tá vindo uma que eu aposto que é uma puta duma gostosa. Dá pra ver a cintura daqui.

Algumas dezenas de metros depois, a previsão se confirma. Os demais felicitam a habilidade em identificar o belo à distância. Não falta modéstia ao observador:

- Caralho, viu; eu tinha que ser olheiro de filme pornô.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ontem e hoje

Todo estudante de jornalismo cria blog quando entra na faculdade. Pensa que vai ajudar a aprimorar a escrita, hã; não chega aos 20 posts e desiste. Aí, depois de 5 meses, bate um ócio produtivo e lá vai o estudante de jornalismo fazer outro blog, dessa vez pretensamente objetivo, sem falar da própria vida. Nessa altura, ele arruma emprego e desiste de escrever na quinta postagem. E assim vai, com um blog aqui, outro acolá - sempre com nomes cuja subjetividade insinua uma erudição adolescente -, até o estudante de jornalismo se formar, e começar a considerar a possibilidade de ser traficante, puta ou servidor público mesmo.

Batata-frita

Não sei como é nas outras capitais brasileiras, mas já há algum tempo São Paulo padece de um mal crônico: pobreza? Não, isso no Brasil é que nem bunda. Aqui a treta é outra, manô: as batatas-fritas.

As fritas vêm se espalhando como pragas pelos quiosques e vendinhas ambulantes das ruas, especialmente no metrô. Com catchup, maionese, mostarda, queijo ralado, são diversas as combinações. Custa de R$ 2,00 a R$ 3,50, dependendo do vendedor e da qualidade do produto. Como se alguém perguntasse: "oi, essa batata é holandesa ou malaia? tio, a batata tá fresquinha, né?".

(Quem me conhece sabe que eu tenho um apetite, digamos, pouco ortodoxo. Então se EU estou cacetando a maldita batata, é porque ela é realmente uma bela droga.)

Dias atrás (odeio CPM 22), desci na estação Bresser -Mooca. Na correria, entrei na primeira lotação que vi. De repente, o cheiro: um meliante ali, a meio metro do meu ser, entupindo o rabo com aquela coisa sebosa, ensopada de óleo. Pior: com um quilômetro de queijo ralado (pelo cheiro presumo que seja um daqueles de atacado) por cima. Enquanto isso, aquela gordura cardíaca típica de fritura escorria, lenta e vagarosamente, como se os demais passageiros fossem obrigados a presenciar aquele martírio calórico.

Imagine você o aroma agradável que ficou naquele carro. Tô com pena do lava-rápido.

Ah, esqueci de falar: o mais legal é que a lotação tava vazia. Às 18h00 quase ninguém usa transporte público, né?

Agora, olhando por outro lado, até que me saí bem: sobrevivi. Desci da lotação, coloquei o fone de ouvido e tomei meu rumo. Já o colega faminto continuou lá, entretido com sua dieta saudável e equilibrada.

Certeza que teve um infarto quando levantou pra dar o sinal.

Du'h!



Hoje saiu na imprensa que Hugo Chávez "proibiu" a série Os Simpsons de ser veiculada na TV venezuelana. Ok. Aí você clicava lá na manchete (a essa altura babando de ódio contra esse ditador mequetrefe). Dentro, via que um órgão de controle de classificação etária daquele país apenas pediu para o programa ser mudado de horário - coisa que já aconteceu inclusive no Brasil.

A alegação é de que o alguns telespectadores reclamaram que o seriado era "impróprio" para as crianças que assistiam o desenho pela manhã.

Informa a BBC:

A Conatel deu dez dias à Televen para expor seus argumentos, mas a rede de TV se antecipou e substituiu a animação, desde a última sexta-feira, pela série Baywatch Hawaii, nova versão da série Baywatch, que no Brasil ganhou o nome de S.O.S. Malibu.



Tá certo que Os Simpsons nem são tão inapropriados assim, mas daí a falar em proibição é meio exagerado, não? Sem contar que a rede de TV "se antecipou" e tirou do ar a atração antes de sequer dar uma explicação a respeito. Pra quê? Pra olocar no ar um monte de bundas loiras.

Enfim...o que importa mesmo nessa história é que em breve chega minha camiseta revolucionária-chavista. Essa aqui:

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Socialismo, criancinha e rock n' roll

Além das criancinhas, os comunistas apreciam, como qualquer ser humano, a boa música. E boa música, com toda subjetividade que o termo pressupõe, não se resume à música clássica e erudita. Na verdade, trata-se do bom e velho rock n' roll.

Na extinta União Soviética, o rock era visto como propaganda capitalista e instrumento de aliciamento da juventude. Por conta dessa visão, os Beatles eram considerados "subversivos". Rolling Stones em Moscou? Nem pensar.

Com a queda do Muro de Berlim, abriu-se a porteira para a vingança anticomunista do rock. No entanto, surgiram inúmeras bandas pelo mundo afora cada vez mais engajadas na defesa dos ideais marxistas. Alguns camaradas chegaram inclusive ao mainstream enquanto disseminavam A Revolução.

Dizem que se Jimi Hendrix tivesse nascido na URSS, o capitalismo estaria morto. Pensando nisso, aqui vão quatro dicas de bandas comunas para o deleite da classe operária:

1) O caso mais emblemático é o do Rage Against The Machine. O pai do guitarrista Tom Morello foi guerillheiro no Quênia. Suas letras são claramente anti-imperialistas, com críticas pesadas ao bipartidarismo nos Estados Unidos e aos grandes monopólios empresariais. O vocalista Zack de la Rocha tem vínculos fortíssimos com os zapatistas no México. Aqui uma menção ao clássico 1984, de George Orwell:

Who controls the past now controls the future
Who controls the present now controls the past
Who controls the past now controls the future
Who controls the present now?



2) O Manic Street Preachers é pouco conhecido no Brasil. Originária do País de Gales, a banda tocou em Cuba em 2001 (ver vídeo) e fez questão de conhecer o presidente Fidel Castro. As letras abordam temas que vão de consumismo até amor e existencialismo, sempre sob uma perspectiva socialista.

The masses against the classes
Im tired of giving a reason
When the future is what we believe in
We love the winter, it brings us closer together



3) O Gang of Four é uma banda anterior à queda do Muro de Berlin. Criada em 1977 na Inglaterra, a banda tem no próprio nome traços de suas influências: "Bando dos Quatro" é a expressão utilizada para se referir aos responsáveis pela implementação da Revolução Cultural na China, presos logo após a morte de Mao Tsé-Tung. São influenciados pela interpretação marxista da Escola de Frankfurt e por pensadores estruturalistas, como Lacan e Foucault. Tocaram no Brasil em 2006 (ver vídeo).

Down on the disco floor
They make their profit
From the things they sell
To help you cover
all the rubbers you hide
In your top left pocket



4) Prata da casa: o Dead Fish surgiu no ínicio dos anos 90 no estado Espírito Santo. Apesar da banda não admitir ser marxista nem comunista, seus três primeiros discos, independentes, escancaram diversas idéias socialistas. Depois de assinarem com uma grande gravadora, a Deckdisc, o ímpeto diminuiu um pouco, é verdade. Mas nem por isso perderam o brilho:

Em nome do privado
Estatizarei
O Estado agora é o Eu
E isso inclui você

***

Minério, violência, especulação
Bens materiais a amar
Prédios altos que mostrarão
Quão grande o tombo será! (ver vídeo)


quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sem sono

Quando criei este blog, não tive a intenção de expor fatos da minha vida particular ou causos de menor importância. No entanto, hoje abrirei uma exceção — embora o que estou para relatar tenha muito a ver com a situação das coisas no mundo em geral.

Há cerca de três semanas, uma mulher, cuja idade deve variar entre 30 e 40 anos, bateu na porta de casa. Ela buscava um lugar para tomar banho. Minha vó, que é a pessoa que fica aqui na maior parte do tempo, deixou. O pedido se repetiu, e com o tempo os banhos da senhora desconhecida se tornaram rotina.

A mulher, de poucas palavras, vive envolta em cachecóis e panos parecidos com véus, à semelhança de vestes muçulmanas. Parece ser bem articulada; falou até de socialismo e feminismo, segundo minha mãe. Mas não dá detalhes sobre seu passado ou família. Só se sabe que a mãe era enferemeira, e que vive na rua em um bairro vizinho ao nosso. Um mistério.

Há alguns dias, trouxe para minha vó um pedaço de pizza, que dissera ter ganho de outra família. Queria, de alguma maneira, retribuir o nós fizemos por ela. Nesta chuvosa quinta de feriado, às 23h00, a mulher tocou novamente a campainha, desta vez pedindo algo para comer. Foi prontamente atendida.

Assim que soube da história, não vi maiores problemas. Com o passar do tempo, porém, começou a me incomodar o fato de ter uma estranha quase que diariamente dentro de casa. Afinal, ninguém a conhece e tampouco sabe suas origens — para o bem ou para o mal.

Perdemos a privacidade e nos sentimos, de uma maneira ou de outra, invadidos cada vez que a senhora desconhecida toma banho aqui. Nós, que moramos de aluguel, não podemos assumir as prerrogativas do Estado e dar dignidade a alguém que caiu de para-quedas em nossas vidas. Também não temos culhões para simplesmente enxotá-la a pontapés.

Com um sincero peso no coração, pedi a minha mãe, na semana passada, que não deixasse mais a mulher entrar em casa. Vem sendo difícil, uma vez que ela parece ter se acostumado a receber nosso abrigo. Pode soar falso, mas também vem sendo difícil para nós — em especial para mim.

Para ser sincero, estou me sentindo um lixo humano por ter de fazer isso.

Eu poderia facilmente argumentar que o surgimento da mulher é conseqüência de um país que não dá assistência a seus cidadãos e jogar a responsabilidade para outra entidade qualquer. Poderia também dizer que não tenho obrigação nenhuma de dar abrigo a uma desconhecida.

Não é o caso: estamos falando de
humanidade.

Como amar o próximo respeitando nossa individualidade? Como ajudar alguém sem que este alguém se torne dependente? Como ser indiferente ao sofrimento alheio? Como separar as relações sociais das relações entre indivíduos?

Não foram poucas as horas e lágrimas dedicadas ao assunto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Santos e revolucionários


No dia 9 de outubro comemora-se o dia de São Dionísio. Enviado pelo Papa para criar a primeira comunidade cristã na região da Lutécia (hoje Paris, França), o santo foi morto no século III, acusado de pregar o catolicismo, religião ilegal à época.o dia 9 de outubro comemora-se o ia de São Dionísio. Enviado pelo Papa

Alguns séculos mais tarde, nessa mesma data, haveria outra morte em circustâncias parecidas: em 1967, Ernesto Guevara de la Serna, o Che, foi executado friamente por militares depois de ter sido capturado na cidade de La Higuera, na Bolívia, onde liderava um grupo guerrilheiro. Ao assassiná-lo, os milicos bolivianos pensavam ter dado fim a um dos maiores propagandistas vivos da Revolução.

Mas o tiro saiu, quase que literalmente, pela culatra: a morte de Guevara fez do guerrilheiro o maior mártir do comunismo. Embora não pretendesse a santidade, Che tornar-se-ia, involuntariamente, a versão socialista contemporânea de São Dionísio.

Após a morte de Che, sua popularidade foi aumentando ano-a-ano, não sem incomodar uns e outros. A direita nunca admitiu que houvesse uma figura como El Che. Por ser humano, acertou e falhou. Por ser socialista, seus erros eram expostos e seus acertos, acobertos. Desde sua morte, as forças conservadoras vem tentando deslegitimá-lo com calúnias e difamações. Para isso vale tudo: omitir, mentir, chamá-lo de oportunista, ingênuo ou até mesmo de covarde, como fez recentemente uma grande revista brasileira.

No entanto, pouco se fala sobre os motivos que fizeram do guerrilheiro um herói. É difícil chamar de assassino um homem que, em pleno combate, prestava auxílio médico a seus inimigos. É no mínimo improvável que seja oportunista um homem que largou uma vida cômoda como médico para ser guerrilheiro na selva. É impossível qualificar de covarde um homem que, depois de fazer a Revolução e virar ministro, abdicou de suas funções no governo e foi, de peito aberto, para a luta armada na África e América Latina.


O desapego ao poder, o idealismo e o senso de justiça são algumas razões pelas quais Che Guevara tornou-se ícone de gerações de jovens em busca de um mundo melhor. Pode-se espernear à vontade; alguns, inclusive, podem achar a imagem de Che surrada, “clichê”, talvez pela sua presença em camisetas e produtos diversos pelo mundo afora.


Nada disso, no entanto, invalida o extraordinário humanismo deste que foi o mais dedicado dos lutadores do século XX. “Procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário". Belíssimo, camarada. Belíssimo.

Mais do que isso: sua postura diante do mundo é um dos maiores legados que a experiência socialista deixou à humanidade. Che analisou escrupulosamente a realidade, mas sem deixar de lado seu ideal. Acreditou no sonho que, no final das contas, é o sonho de todos nós. Foi a fundo na prática revolucionária, sem contudo deixar a teoria de lado. Não delineou fronteiras; a liberdade humana foi sua Pátria. São Dionísio não faria melhor.

Che Vive!

sábado, 6 de outubro de 2007

Tropa de Elite

Publicado originalmente na comunidade Botequim Socialista

***

Vi ontem Tropa de Elite. Minha mão coçou, não me agüentei e aqui vão algumas impressões:

Não achei o filme fascista, como a maioria. O fato do longa mostrar as relações sociais do tráfico pela ótica do BOPE não significa uma adesão automática à lógica policial. Esse argumento me parece maniqueísta. Como disseram alguns aqui, entre eles o Phantom, precisamos de filmes que mostrem a visão do outro lado. Até porque para vencer o inimigo é preciso entendê-lo, não?

Uma coisa que me chamou a atenção foi que, durante todo o filme, a polícia, representada pelo cap. Nascimento, diverge da classe média, travestida sob a figura dos estudantes. A crítica da esquerda diz que a polícia só bate em pobre e protege a playboizada, isto é, da classe média. Como divergir da classe média então?

Por aí já não acho que o filme assine embaixo do BOPE, não.

Por outro lado, a narrativa glamuriza, sim, as ações do BOPE, mas, a meu ver, isso é mais uma exigência mercadológica, vamos dizer assim, do que um apoio irrestrito às práticas ali retratadas. Isso também depende de quem vê o filme: eu não acho legal ver o cap. Nascimento ensacando a mulecada só porque ele é honesto dentro da corporação. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Aliás, o BOPE é glamurizado por ser honesto dentro dos parâmetros do mundo policial, os quais, como é mostrado no longa-metragem, não são exatamente bons.

A meu ver, ninguém ali no filme escapa da crítica: BOPE, PM, traficantes, ONG’s que mantém relações “amistosas” com o tráfico e, principalmente, a classe média. Para mim a instituição mais criticada no filme é a classe média. Numa analogia, o baseado do estudante pode ser considerado a renda que essa classe (e daí pra cima) não quer distribuir nem a pau — assim como o muleque não quer deixar de fumar unzinho.

Além disso, o universitário-traficante protestando contra a violência é a imagem cuspida e escarrada do comportamento da elite brasileira: se omite a vida inteira dos problemas que ela mesma criou para a sociedade, mas resolve protestar quando esse mesmo problema bate a sua porta. De acordo com essa interpretação, a cena do Matias dando bicuda no estudante em meio ao protesto foi, para mim, a mais catártica de todo o filme.

O filme tem três méritos: 1) não aponta culpados, e sim mostra que o problema do tráfico e da violência só vai ser resolvido quando o Estado investir no morro ao invés de só ficar na repressão. 2) mostrar que cada ente envolvido nessa luta tem sua própria lógica e não uma brutalidade inata; 3) estimular, e muito, a discussão. Esse é o principal.

E o Wagner Moura é mesmo um puta ator, hehehe!

Enfim, é isso.